
Semana passada, dona Zilda chegou na cozinha da igreja no escuro, como todo dia. Só que naquele dia ela sentou na escada e não conseguiu levantar.
Quero contribuirNão foi a perna, aos 66 anos. Não foi a coluna. Foi uma conta.
Naquele dia, ela tinha contado as doses da gaveta. Os cuidados do neto são pra trinta dias, e tinham sobrado dez comprimidos. Ela somou o que ela e a filha iam receber no mês, refez a soma, e não chegava nem perto do que eles precisavam.
O neto é o Davi, seis anos. Ele tem umas crises que só esses cuidados segura. Vem de fora do país, não tem genérico, e custa mais do que a aposentadoria dela pagava quando ainda vinha inteira. Hoje vem a metade.
Foi por isso que ela voltou pro fogão da igreja, onde cozinhou a vida toda. Entra antes das quatro, sai de noite. A filha limpa casa de segunda a sábado e dorme no quarto do menino, porque sem os cuidados a crise pode vir até dormindo.
O Davi não sabe de nada disso. Pra ele, os cuidados são um comprimido que ele toma de manhã fazendo careta. A avó quer que continue sendo só isso.
Dona Zilda serviu comida pros outros a vida inteira. É a primeira vez que ela estende a mão, e dessa vez não é pra entregar um prato.
O que mantém as crises longe do Davi pode começar aqui embaixo.